O que você precisa saber antes de mudar de país

31.08.2018

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Ninguém nunca nos disse que empacotar todas as nossas coisas e partir para outro país seria fácil. Uma mudança de país certamente é muito maior do que simplesmente fazer as malas e fechar as contas bancárias. É se desconectar voluntariamente de tudo que fez parte da sua vida para começar tudo de novo, em um novo lugar, sob uma nova perspectiva.

 

Desde muito nova me considerava uma pessoa desapegada e independente. Quando saí da pequena cidade onde cresci para estudar na grande São Paulo, já sabia que não voltaria mais. Sabia inclusive que mesmo lá, naquela cidade enorme, eu não ficaria por muito tempo. Meu desejo sempre foi explorar o mundo.

 

O que nunca imaginei é que sem a possibilidade de realizar as viagens mensais que eu normalmente fazia para o interior, sem os reencontros, os abraços de chegada e de partida, os cafés da tarde em família ou em amigos, eu de fato me sentiria só e com o coração apertado de saudade.

 

O que eu não sabia é que a distância em um mesmo país, em um mesmo estado, não é tão distante assim. Não sabia que estando em outro continente, depois de um tempo longe do lugar onde nasci, cresci e aprendi tudo que sei, a saudade ia bater forte e os obstáculos pareceriam ainda maiores, fazendo-me questionar por muitas vezes se tomei a decisão certa.

 

Como é mudar de país?

 

Não me entendam mal, a mudança de país é uma experiência fantástica, cheia de descobertas e superação - e tem trazido inúmeros aprendizados para nossa família. Mas acho importante destacar que não é um conto de fadas perfeito. Qualquer pessoa que esteja considerando deixar seu país de origem em busca desse grande sonho precisa saber que poderá enfrentar alguns “efeitos colaterais”.

 

Completamos hoje 6 meses morando aqui na Áustria e, por isso, resolvi compartilhar de forma cronológica 6 fases difíceis que vivenciei nessa jornada.

 

1) O impacto causado na família

 

Mesmo que a decisão de mudar de país seja baseada em uma grande oportunidade – uma boa proposta de emprego ou uma bolsa de estudos em uma grande universidade, por exemplo –, sejamos francos: a mudança de país é uma decisão unilateral e certamente irá afetar negativamente sua família. Eles provavelmente dirão que se você estiver feliz, então eles estarão também, mas é claro que a distância trará sofrimento a eles. Quem se muda, especialmente nos primeiros meses, mal tem tempo de sentir a dor da separação. Mas quem fica, sente diariamente.

 

2) A corrida contra o tempo para falar o idioma local

 

Se você já for craque na língua oficial do país para o qual está indo, já é um grande e importante passo. Mas se você ainda não domina o idioma, essa será uma das principais barreiras a serem vencidas. Será uma corrida acirrada entre você e você mesmo, pois vencer essa barreira não depende de ninguém além de você. Embora o inglês seja uma língua muito falada em quase todos os países do mundo, apostar somente nele e não se aprofundar no idioma local fará com que você seja sempre considerado uma “pessoa de fora”. Integrar-se à cultura, aos costumes e ao idioma do novo país são essenciais para que você – e os outros – entenda que aquela é sua nova vida. Isso fará desaparecer a sensação de não estar em casa.

 

3) O sentimento de culpa por estar longe

 

A vida continua depois que você se muda de país, coisas boas e também ruins continuarão a acontecer enquanto você está a milhares de quilômetros de distância. No meu caso, ver uma pessoa que amo incondicionalmente adoecer e ficar por um fio entre a vida e a morte foi, de longe, a pior e mais triste experiência que tive. Estar distante e não poder ajudar, não poder sequer dar um abraço, intensificou a dor e trouxe um forte sentimento de impotência e de culpa. Culpa por não estar perto, por não poder ajudar e, adicionalmente, por também “não permitir” que meu filho cresça na companhia dos familiares.

 

4) A solidão e a nostalgia

 

Os primeiros meses são os mais fáceis. Uma casa nova, um trabalho e/ou curso novo e todas as novidades de uma vida nova funcionarão como combustível. Se você tiver sorte de encontrar boas pessoas pelo caminho, rapidamente fará amigos que o ajudarão a segurar as pontas. Mas levará tempo até que essas amizades tornem-se significativas e consistentes, e neste ponto é que a solidão irá bater em sua porta. Mesmo cercada de pessoas legais, frequentemente me sentia solitária e às vezes até melancólica. Sinto saudades do almoço de domingo junto da família, do encontro com os antigos amigos do colégio, das festas de aniversário onde todos os tios e primos se reuniam... ocasiões cheias de memórias que hoje parecem tão distantes da minha nova vida aqui.

 

5) A sensação de não se encaixar mais

 

Mudar de país te muda tanto, de tantas formas, que você nunca mais será a mesma pessoa que antes. Você descobrirá novas paixões, novos medos, novos gostos. Certamente abandonará algumas conviccções antigas e acreditará em coisas novas. Para muitas pessoas isso será algo super positivo, para outras poderá trazer um sentimento de alienação com relação ao que antes costumava fazer sentido – e agora não faz mais. Conversar com pessoas que antes tinham tanto em comum com você e perceber que hoje já não parece existir tantas semelhanças pode ser um choque. Talvez você não se encaixe mais ao mundo que vivia e, acredite, talvez faça até mais sentido chamar de “lar” o novo país que você escolheu para viver.

 

6) A aceitação e o direito de ser feliz

 

Mudar-se de país é a mais profunda e efetiva forma que uma pessoa tem de realizar uma autoanálise genuína. Acostumar-se à nova cultura, recriar seu círculo de amigos, vencer barreiras de idioma e obstáculos na carreira profissional, aceitar-se, compreender que estar longe da família não anula o sentimento de amor... eu jamais imaginei que essas coisas seriam tão difíceis de enfrentar. Não somente pelo grau de dificuldade de cada uma, mas porque enfrenta-las seria uma batalha que somente eu poderia lutar, ninguém poderia assumir esse papel por mim. Hoje vejo que cada obstáculo vencido me fez e continua fazendo uma pessoa melhor e mais madura. A aceitação vai chegando conforme vamos nos livrando dos medos e vamos nos permitindo viver uma vida feliz onde escolhemos estar.

 

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